Haddad defende cerco financeiro ao crime organizado e cobra apoio político para endurecer leis contra sonegadores
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, elevou o tom do discurso nesta sexta-feira (31) ao afirmar que o combate ao crime organizado no Brasil precisa ir além das operações policiais. Segundo ele, é urgente ampliar o foco das ações governamentais para o enfrentamento econômico das facções criminosas, bloqueando suas fontes de financiamento e desmantelando os esquemas de lavagem de dinheiro que sustentam suas atividades ilícitas.
A declaração foi feita em São Paulo, durante entrevista coletiva, em meio às recentes megaoperações contra o Comando Vermelho, no Rio de Janeiro, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo.
“É preciso asfixiar financeiramente as facções”
Haddad defendeu que a repressão ao crime organizado deve ir além do aparato policial. Para ele, o Estado precisa “asfixiar” financeiramente as organizações criminosas, impedindo que elas utilizem brechas legais e empresas de fachada para lavar dinheiro e movimentar recursos ilícitos.
“Além de cumprir mandados de prisão, é preciso cortar o oxigênio financeiro dessas organizações. Se não asfixiar o financiamento, não vai dar certo”, afirmou o ministro.
O titular da Fazenda explicou que há um esforço coordenado entre órgãos federais — como Receita Federal, Polícia Federal e Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) — para rastrear e interromper os fluxos financeiros que abastecem o crime. Um dos principais focos desse trabalho está no setor de combustíveis, frequentemente usado por facções para lavar dinheiro e driblar o pagamento de impostos.
“Essa é uma das principais fontes de financiamento do crime organizado no Rio”, destacou.
Projeto do “devedor contumaz” no centro do debate
Durante a entrevista, Haddad aproveitou para reforçar a importância do projeto de lei que endurece as regras contra o chamado “devedor contumaz”, figura jurídica que define empresas e pessoas que acumulam dívidas milionárias com o fisco de forma proposital e recorrente.
Segundo o ministro, esse tipo de sonegador é peça-chave na engrenagem financeira das facções criminosas, funcionando como intermediário entre o dinheiro sujo e a economia formal.
“Por trás do sonegador, o que existe é o crime organizado”, declarou Haddad.
O projeto, que já foi aprovado pelo Senado e aguarda votação na Câmara dos Deputados, prevê mecanismos mais rigorosos de fiscalização e punição para empresas reincidentes na sonegação fiscal. De acordo com o ministro, a proposta é uma ferramenta essencial para fechar brechas utilizadas por criminosos e dificultar o uso de estratégias jurídicas fraudulentas que mascaram a origem ilícita do dinheiro.
Facções infiltradas na economia formal
Haddad também chamou atenção para a forma como o crime organizado se infiltra na economia formal, utilizando empresas aparentemente legítimas como fachadas para ocultar recursos oriundos do tráfico de drogas, contrabando e corrupção.
Segundo ele, negócios comuns — como postos de gasolina, motéis e franquias — são frequentemente usados para movimentar dinheiro ilegal sem levantar suspeitas.
“A origem é ilícita, mas busca se misturar com o que é lícito. É por isso que essa legislação é tão necessária”, ressaltou.
Para o ministro, sem o apoio político necessário, o combate ao crime continuará enfrentando obstáculos. Ele defende que o endurecimento das regras fiscais é um passo crucial para impedir que o dinheiro sujo circule livremente no sistema econômico.
Recado ao governador Cláudio Castro e críticas ao PL
Em tom direto, Haddad mandou um recado ao governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), pedindo que mobilize sua bancada na Câmara em apoio à aprovação do projeto. O ministro lembrou que boa parte do financiamento das facções fluminenses está ligada justamente às brechas que a nova lei pretende fechar.
“Uma boa parte do crime organizado do Rio de Janeiro está se escondendo por trás dessas estratégias jurídicas que esta lei visa coibir”, afirmou.
Haddad também criticou o Partido Liberal (PL), legenda de Castro e do ex-presidente Jair Bolsonaro, que votou majoritariamente contra o regime de urgência do projeto. Na votação de quinta-feira (30), 35 deputados do PL foram contrários e apenas 30 favoráveis.
Apesar disso, a Câmara aprovou o requerimento de urgência, o que permite que o texto seja analisado em plenário nos próximos dias. O presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), deve pautar a matéria em breve.
União entre governos e partidos
Encerrando sua fala, Haddad defendeu que o enfrentamento ao crime organizado precisa unir diferentes esferas de poder e partidos políticos, independentemente de ideologias. Para ele, a luta contra as facções é uma causa de Estado, e não apenas de governo.
“O país precisa se unir nesse esforço. Não se trata de governo ou oposição, mas de proteger a sociedade e garantir que o dinheiro público não continue financiando o crime”, enfatizou.
Com um discurso firme e pragmático, o ministro busca reposicionar o debate sobre segurança pública, ampliando-o para além da esfera policial e reforçando o combate financeiro como ferramenta central. Caso a estratégia avance, poderá representar um novo capítulo na luta contra o crime organizado no Brasil, atacando o ponto mais sensível das facções: o dinheiro que as mantém ativas e poderosas.
