Olha só o que disse o ministro Flávio Dino sobre a operação do RJ

Flávio Dino alerta: facções criminosas estão “ultracapitalizadas” e infiltradas na economia formal

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, reacendeu um debate urgente e sensível ao afirmar que as facções criminosas no Brasil estão “ultracapitalizadas”, ou seja, com poder econômico suficiente para influenciar o cenário social, político e de segurança pública, especialmente no Rio de Janeiro. A declaração foi feita durante o Fórum Nacional Brasil Export Infraestrutura 2025, em meio às repercussões da megaoperação da Polícia Civil fluminense, realizada na última terça-feira (28).

Segundo Dino, o crime organizado já ultrapassou o limite do tráfico de drogas e passou a se infiltrar no mercado formal, operando dentro de estruturas econômicas do Estado e da iniciativa privada. “Por que está esse caos lá? Porque as facções criminosas estão ultracapitalizadas. E elas se capitalizam como? Só vendendo droga? Não, é dentro do mercado formal. Foi-se o tempo em que as facções criminosas no Brasil viviam apenas de mercado ilegal”, afirmou o ministro.

O novo perfil do crime: entre o ilegal e o formal

A fala de Dino provocou intenso debate entre autoridades, economistas e especialistas em segurança pública. Muitos viram em sua análise um retrato preocupante da evolução das facções, que agora se comportam como verdadeiras organizações empresariais.

De acordo com o ministro, essa “hibridização” entre economia legal e ilegal deu origem a um novo modelo de poder paralelo, em que o dinheiro do crime circula por dentro do sistema financeiro, disfarçado sob a aparência de negócios legítimos. Ele destacou que as facções hoje investem em postos de gasolina, empresas de transporte, construção civil, imóveis, comércio e até tecnologia, utilizando laranjas e esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro.

Na prática, o crime organizado se profissionalizou. Parte de seu capital já transita livremente na economia brasileira, de forma silenciosa e, muitas vezes, impune. Esse fenômeno, segundo Dino, é o que explica a crescente capacidade de financiamento, armamento e influência política dessas organizações.

A megaoperação no Rio e o poder das facções

O pronunciamento do ministro ocorreu logo após uma operação de grandes proporções no Rio de Janeiro, que teve como alvo grupos ligados ao Comando Vermelho (CV) e ao Terceiro Comando Puro (TCP) — facções que travam uma guerra sangrenta por territórios e rotas de tráfico.

O confronto deixou dezenas de mortos e reacendeu o debate sobre segurança pública, desigualdade social e corrupção institucional. Autoridades locais afirmaram que os criminosos possuem armamentos de guerra, usam drones de vigilância e contam com estrutura logística comparável à de pequenas forças paramilitares.

Para Flávio Dino, esse poderio bélico e operacional não seria possível sem o apoio de recursos provenientes do sistema financeiro legal, o que demonstra a necessidade de um enfrentamento econômico e não apenas policial.

“Estamos diante de um crime corporativo”

Economistas e estudiosos da área de segurança endossaram as preocupações do ministro. Um pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), ouvido pela imprensa, definiu o atual modelo das facções como um “crime corporativo”, que se estrutura como uma empresa moderna.

“As facções migraram para uma lógica empresarial. Elas diversificam receitas, investem em setores legítimos e contratam consultorias para mascarar transações ilícitas. É o capitalismo do crime”, explica o especialista.

A análise reforça a ideia de que a repressão policial, sozinha, não é suficiente para conter o avanço do crime organizado. Para os especialistas, o Estado precisa cortar o fluxo financeiro que sustenta essas organizações, rastrear investimentos suspeitos e desmantelar as redes de lavagem de dinheiro.

Dino defende resposta integrada e multissetorial

Em seu discurso, Flávio Dino argumentou que o enfrentamento ao crime precisa ser coordenado e multissetorial, envolvendo não apenas as forças de segurança, mas também órgãos de controle financeiro, a Receita Federal, o Banco Central, o Coaf e o setor privado.

“Não se combate um poder econômico com operações pontuais. É preciso sufocar as fontes de capital, rastrear transações e responsabilizar quem se beneficia dessa economia criminosa”, afirmou o ministro.

A fala ecoa discussões em andamento no Congresso Nacional, que busca atualizar a legislação de lavagem de dinheiro e reforçar a rastreabilidade de recursos suspeitos. Contudo, essas propostas enfrentam resistência de setores empresariais e políticos, preocupados com o impacto de um controle mais rigoroso sobre operações financeiras.

O crime que compra poder

O alerta de Dino vai além da segurança pública: ele toca na própria soberania econômica e institucional do Brasil. A chamada “ultracapitalização” das facções não se resume ao acúmulo de dinheiro — ela representa a capacidade de corromper, influenciar e controlar esferas do poder público e privado.

O ministro destacou que o crime organizado já atua na compra de influência política, no financiamento de campanhas locais e no controle de comunidades inteiras por meio de favores e intimidação. Essa realidade cria um círculo vicioso no qual a pobreza e a ausência do Estado abrem espaço para o domínio criminoso.

“O inimigo de hoje não é apenas aquele que empunha uma arma. É também quem assina contratos, movimenta contas bancárias e compra poder”, resumiu Dino.

Um desafio estrutural e nacional

As declarações de Flávio Dino colocam o tema da economia do crime no centro do debate nacional. O desafio agora é reconhecer que o tráfico e as facções deixaram de ser apenas problemas policiais, transformando-se em um fenômeno econômico e estrutural, que ameaça o funcionamento do próprio Estado.

Enquanto o Rio de Janeiro tenta se recompor após mais uma semana de violência, a análise do ministro expõe uma dura realidade: o crime não está apenas nos morros ou nas fronteiras — ele está dentro do sistema, misturado a negócios, investimentos e fluxos financeiros legítimos.

O país, segundo Dino, precisa escolher se continuará tratando o crime apenas com fuzis e operações ou se enfrentará o problema com inteligência financeira, integração institucional e vontade política.

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